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Dieta do jejum: saiba mais sobre a nova 'moda' de ficar sem comer

Especialistas são contra a novidade, uma vez que um dos princípios da educação alimentar é a ingestão equilibrada de três em três horas
Foto: Getty Images
  • Danielle Barg
 

Comer de três em três horas, em porções equilibradas, já nem é mais conselho de nutricionista – é quase como um senso comum. Com tanta informação disponível sobre educação alimentar, parece inacreditável que uma dieta que propõem justamente o contrário – a privação total da alimentação – esteja caindo nas graças de milhares de pessoas nos Estados Unidos e no Reino Unido.

Popularizada por meio do best seller The Fast Diet, do jornalista Michael Mosley, a “intermittent fasting”, também conhecida por aqui como “dieta do jejum intermitente”, a novidade vem arrepiando os cabelos dos especialistas da área.

Mosley propõe um plano alimentar batizado de “5:2”, que significa comer normalmente por cinco dias e, na sequência, comer apenas um-quarto da quantidade diária de calorias por dois dias consecutivos. “Funciona com 500 calorias para mulheres e 600 para os homens”, diz ele, em seu site.

Ele escreveu o livro baseado na própria experiência. Depois de receber um puxão de orelha do seu médico, por estar acima do peso e com os níveis de colesterol desregulados, decidiu pesquisar diversos métodos e optou pelo jejum. No seu site, ele afirma que viu a saúde melhorar e o ponteiro da balança diminuir, afirmando que perdeu mais de 9 quilos ao longo de 2012.

Ouvidas pelo Terra, as nutricionistas Vivian Ragasso, do Instituto Cohen de Ortopedia, Reabilitacao e Medicina do Esporte, e Vivian Zollar, da Qualy Food, ambas de São Paulo, são enfáticas em afirmar que a dieta não traz resultados efetivos. Segundo elas, o peso vai embora, mas a restrição pode causar males à saúde e bagunçar o metabolismo. Além disso, como ninguém consegue passar a vida em jejum, a tendência é os quilos perdidos acabarem voltando. Saiba mais como isso funciona.

Gordura x músculo
De acordo com Ragasso, a dieta do jejum não traz benefício nenhum. “Não funciona porque você não chega a perder gordura. Você até vai ver alguns quilos a menos na balança, mas isso porque está eliminando água e massa muscular”.

Em livro, jornalista recomenda plano alimentar "5:2", com 5 dias de alimentação normal e 2 comendo apenas 1/4 do total diário
Foto: Divulgação

Em entrevista ao jornal The Huffington Post, Mosley rebate este paradigma. Ele afirma que reduziu a sua taxa de gordura corporal de 28% para 20% e diz ainda que alguns estudos comprovam a perda de gordura a partir do método.

Zollar concorda que é possível sim reduzir a gordura com jejum, mas isso não sobrepõe o prejuízo causado pela perda muscular. “Não existe lógica nessa dieta porque uma hora o corpo vai tentar recuperar o que perdeu. O fato de ele ter testado a dieta não significa nada, porque é preciso saber se isso tem evidência científica e se as pesquisas feitas seguiram os mesmos critérios”.

Corpo em estado de alerta
Ragasso afirma que, em situações de emergência, o corpo trabalha com reservas. Basicamente, existem as células de gordura e as musculares, que são fisicamente ativas e comandam o metabolismo. “O nosso músculo é renovado diariamente, porque comemos proteínas e as gastamos. Se você perde músculo e água, o seu metabolismo fica lento”, explica.

Nessa escassez de recursos, a gordura é a última reserva que o corpo vai buscar. “A gordura fica armazenada de uma forma muito protegida dentro do corpo, e ela só sai quando você parar de comer gordura, não quando parar de comer. Depois de um tempo em jejum, o corpo vai entender que está passando por um estado de privação de energia, então passará a armazenar”.

Ela explica que é difícil mensurar quantos quilos uma pessoa pode perder com este tipo de restrição, porque tudo depende do estado de saúde e das informações nutricionais de cada pessoa, mas em média pode chegar até 5 kg semanais.

Principais riscos
Ambas as profissionais ressaltam como ponto negativo da dieta o incentivo a um hábito alimentar insustentável que, a longo prazo, deixa de ser mantido. “Quando o corpo não recebe alimento, ele precisa estocar, então, tenta economizar no gasto o mínimo possível de energia. Então a dieta pode ter o efeito contrário”, acrescenta Zollar.

Os principais problemas associados ao método são a redução do metabolismo, e, a longo prazo, até mesmo o desenvolvimento de problemas renais e das diabetes, devido à explosão da liberação de glicose na volta à alimentação após um longo período de jejum. Alteração de humor, irritabilidade, dores de cabeça e desmaios também são problemas recorrentes.

Zollar não recomenda a dieta em nenhum caso, com destaque especial para crianças e adolescentes, que ainda estão em desenvolvimento, ou hipertensos, diabéticos e portadores de problemas renais.

Saúde é o que interessa
“Infelizmente, no Brasil a preocupação com o corpo fala mais alto do que a preocupação com a saúde”, dispara Zollar, com relação às dietas da moda que tendem a pegar por aqui. “Se você quer perder peso, é preciso procurar um profissional que acompanhe e se for o caso peça até um check-up para verificar as suas condições”, recomenda.

Ragasso também descarta as fórmulas mágicas e segue recomendando a mais tradicional, porém eficaz. “Comer a cada três horas, fazer pelo menos duas refeições completas, com proteína magra, carboidrato e legumes, além de um café da manhã com a porção de cálcio adequada. Inclua proteína nestes intervalos, e uma boa alternativa também são as frutas secas, castanhas, coisas que são fáceis de carregar. Beba muita água. É possível ter momentos de prazer, sem passar fome, com uma alimentação equilibrada”, pontua. 

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