Doenças e Tratamentos

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29 de maio de 2013 • 14h21

Entenda a luta de Oscar Schmidt contra tumor no cérebro

Especialistas explicam o desenvolvimento da doença e as formas de tratamento

O ex-jogador de basquete teve o primeiro diagnóstico em 2011
Foto: Getty Images
  • Roberta Figueira
 

Na noite desta terça-feira (28), Oscar Schmidt participou de um evento em São Paulo e falou sobre a cirurgia pela qual passou para a retirada de um tumor no cérebro. O ex-jogador de basquete foi diagnosticado com um tumor benigno em 2011 e realizou uma primeira operação na época. Porém, precisou passar por um novo procedimento no dia 30 de abril deste ano. Segundo Oscar “apareceu um negocinho” que precisou ser retirado. “Tumores nem sempre voltam do mesmo jeito. Em geral, eles mudam de característica e tendem a ser mais agressivos”, explica o oncologista Artur Malzyner, do Hospital Israelita Albert Einstein e da Clínica de Oncologia Médica.

Segundo o oncologista Claudio Calazan, do Centro Oncológico de Niterói, é difícil falar em tumor benigno na região do cérebro. “Há tumores com espectro bem diferenciado, localizados e com crescimento mais lento, que são pouco agressivos, que são de grau 1. Já os de grau 2 são um pouco mais agressivos, tendo uma taxa maior de invasão no tecido saudável e costumam reincidir. Nos casos de grau 3 já é necessário o tratamento complementar, além da cirurgia, pois há uma malignidade maior. Finalmente, o tumor de grau 4, conhecido como glioblastoma multiforme, se espalha rapidamente, invadindo estruturas saudáveis e causando inflamações”, explica.

Segundo Artur, entre os tumores de baixo grau (1 e 2), o índice de retorno é entre 30% e 50%, mesmo quando o problema é corretamente tratado. Já em casos de alto grau (3 e 4) a probabilidade de reaparição do tumor é muito grande, chegando a quase 100%. “Tumor no cérebro não é uma sentença de morte. Porém, é importante que o paciente saiba que, mesmo com a remoção completa, ele pode voltar a aparecer. Isso normalmente acontece em um período médio de até três anos”, diz Claudio.

Felizmente, os tumores no sistema nervoso central são raros. “Enquanto os tipos de câncer mais comuns na população, como o de mama, de intestino e de pulmão, aparecem em de 50 a 100 pessoas a cada 100 mil ao ano, o de cérebro surge em apenas cinco a cada 100 mil ao ano”, afirma Artur.

Características da doença
Os tumores na região do cérebro costumam ser perigosos devido à restrição de espaço. “Um nódulo de poucos centímetros, que não traria grandes transtornos em outras localidades, ganha importância no cérebro. Do ponto de vista clínico, mesmo os tumores de baixo grau são complicados, pois não há espaço para crescimento. A caixa craniana é compacta e o cérebro está envolvido por um invólucro e líquido. Então, o tumor aumenta a pressão causando dor e prejudicando comandos neurológicos”, diz Artur.

Entre os principais sintomas estão dor de cabeça, possíveis convulsões e problemas em algumas funções como visão, audição e coordenação motora, dependendo do local onde o tumor está localizado. Segundo Claudio, os dois picos principais do aparecimento da doença são na infância, em crianças de até 5 anos, e entre idosos, após 65 anos. Porém, os tumores têm características diferentes em cada fase.

Os estudos sobre a possível ligação entre o uso de celular e o câncer de cérebro não são conclusivos
Foto: Getty Images

O tumor de cérebro normalmente aparece de forma aleatória, não tendo muitos fatores que podem potencializar os riscos de seu aparecimento. Segundo Artur, existe certa relação com o histórico familiar em alguns casos, assim como a exposição à raio X  e também uma pequena fração vinculada ao uso de aparelhos celulares, porém os dados em relação a isso ainda são pouco consistentes. “A discussão em relação aos celulares ainda está em aberto. Também pode haver uma relação com alguns agentes químicos e campos eletromagnéticos, mas ainda há poucas evidências. O que sabemos é que exposição à radiação durante a infância, como uma radioterapia para o tratamento de outro tipo de câncer, está vinculada a um risco maior de tumores no cérebro no futuro”, afirma Claudio.

Tratamento
Após o diagnóstico o primeiro passo é a cirurgia de remoção do tumor. “Isso normalmente é indicado em todos os casos. O neurocirurgião sempre tenta retirar o máximo de tecido do tumor. A cirurgia também é necessária para que o médico reconheça microscopicamente o tumor para saber seu grau”, explica Artur. Segundo Claudio, essa é uma operação delicada e muitas vezes não é possível retirar completamente o tumor por estar localizado em uma área de difícil acesso ou por já ter invadido estruturas importantes do cérebro.

De acordo com Artur, em casos de tumor de baixo grau com retirada completa por cirurgia, o tratamento pode ser encerrado já nessa primeira etapa. Já em casos de alto grau, o ideal é passar para o uso de quimioterapia combinada a radioterapia, o que, segundo Claudio, é essencial para trabalhar na diminuição e controle do resquício de tumor para retardar seu crescimento. “Usar os dois tratamentos ao mesmo tempo tem mostrado melhores resultados. Os tumores de graus 3 e 4 são mais sensíveis a essas terapias. Por isso, para os de baixo grau só é utilizada se o tumor não for retirado completamente”, defende Artur.

Apesar de mais sensíveis à radioterapia, os tumores mais agressivos são difíceis de combater, pois possuem um alto grau de mutação. “Supondo que você consiga destruir 90% do tumor, esses 10% restantes são os mais resistentes à radiação. Em cerca de seis ou nove meses, esse tumor tende a crescer a partir dessa sobra, sendo agora muito mais resistente”, explica Claudio. Segundo ele, o volume tumoral que fica tem relação direta com o prognóstico.

Depois 4 a 6 semanas do início do tratamento com quimioterapia e/ou radioterapia, é preciso fazer um exame de imagem para avaliar a evolução do tumor. “A ressonância magnética é o exame mais indicado para isso”, aponta Claudio. O acompanhamento com novas consultas e exames deve ser feito a cada três meses. Segundo ele, com resultados bons, o especialista pode passar para avaliações semestrais que devem durar pelo menos 5 anos, mantendo certo acompanhamento até 10 anos.

Sobrevida
Segundo os especialistas, a sobrevida média em casos de tumor de baixo grau é de 3 a 10 anos, enquanto em casos de tumores mais agressivos a média é de 10 a 20 meses. “É claro que sempre há pessoas que se curam, mas infelizmente o nível de sobrevivência a esse tipo de câncer ainda é baixo, cerca de 5%”, informa Artur.

A questão principal é manter a qualidade de vida e a força de vontade para encarar a luta contra a doença. “Cada vez mais a medicina consegue encontrar soluções engenhosas para problemas de saúde. A ciência hoje em dia se desenvolve muito rápido e está sempre revelando novas possibilidades. Por isso, ganhar tempo é essencial. Enquanto houver vida, há esperança”, defende o especialista.

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