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08 de novembro de 2012 • 21h31

Médicos alertam para atraso no tratamento do Mieloma no país

A Fundação Internacional do Mieloma Múltiplo reuniu especialistas para discutir as dificuldades do tratamento da doença no Brasil
Foto: Juliana Prado/Terra
 

A Fundação Internacional do Mieloma Múltiplo, organização com representação no Brasil e na América Latina, reuniu especialistas nesta quinta-feira no Rio de Janeiro para discutir os atuais procedimentos e, principalmente, os entraves para o tratamento da doença no Brasil. O clima é de muita apreensão e de alerta, já que o país é considerado ainda muito atrasado no diagnóstico e no acompanhamento de pacientes que sofrem do mal.

O Mieloma Múltiplo é uma espécie de câncer da medula óssea ainda pouco conhecido e difundido, mas com abrangência importante entre a população brasileira e mundial, principalmente a de pessoas com mais de 60 anos. Para se ter ideia, entre as doenças do sangue, o Mieloma é hoje a segunda mais frequente, só perdendo para os linfomas. E também neste cenário, é a primeira em número de pacientes transplantados.  

Alguns entraves principais podem ser apontados com relação às falhas do Brasil no combate e controle da doença, o e que comprometem, profundamente, o tratamento de qualidade no país. O primeiro, a dificuldade com que os medicamentos novos chegam ao mercado nacional.

A médica Angela Hungria, da Santa Casa de São Paulo e especialista no tema, critica a não aprovação, pela Anvisa, de um dos mais potentes e avançados remédios à disposição no mercado mundial. Trata-se do Lenalidomida – ou Revlimid. Hoje, só utiliza a droga no Brasil quem consegue autorização judicial. “É um absurdo o que acontece. Os estudos são claros e outros órgãos fora daqui já aprovaram o uso do remédio. Mas a Anvisa sempre alega que os estudos não foram suficientes (para autorizar o uso do remédio no Brasil)”, destaca a médica.

Segundo a especialista, o Velcade, outra droga largamente utilizada no mundo, também tem baixa circulação no mercado interno. O SUS, por exemplo, não banca a distribuição do remédio para os pacientes.  O grande drama da não circulação de novos medicamentos no páis é que, no caso do Mieloma Múltiplo, quanto mais produtos estiverem à disposição, mais chances de sobrevida terá o paciente. Isso porque a doença não tem cura, os estudos ainda não estão em estágio avançado e as drogas já em circulação, como a Talidomida, podem em alguns casos provocar reações nos pacientes. Daí se necessitar de novas opções constantemente.

Este tipo de câncer também é usualmente conhecido pelos comprometimentos físicos agudos. O mal provoca quebra dos ossos do corpo, num estágio muito mais danoso que a osteoporose, por exemplo. Por isso, é importante testar todo o rol de tratamentos possíveis. Há casos, relata Vânia Hungria, de pessoas que chegam a reduzir até 12 cm na altura corporal, em função de danificação dos ossos.

Transplante

Outro atraso do Brasil em relação a muitos países é no transplante autólogo (do paciente para si mesmo). Segundo o médico Angelo Maiolino, diretor da Associação Brasileira de Hematologia, em muitos casos da doença, o transplante é mais eficaz até que o tratamento convencional, por remédios. Hoje no Brasil já se admite submeter pacientes de até 70 anos ao procedimento, se as condições de saúde gerais permitirem. No entanto, o transplante ainda não é oferecido da forma ideal, sendo poucos os centros de saúde aptos para fazer a tarefa a contento.

Como se não bastasse, o diagnóstico da doença por parte dos profissionais da saúde também é frágil, atesta Vânia Hungria. Segundo ela, há muita gente morrendo da doença sem ter tido a detecção do quadro de Mieloma Múltiplo. “O médico no Brasil não pensa o diagnóstico. Por isso estamos aqui. Porque é importante disseminar a informação”.  Os especialistas alertam que, apesar de acometer, geralmente, pessoas com mais de 60 anos, a doença tem surgido em pessoas mais jovens, o que também preocupa.

Troca de experiências

O médico Paul Richardson, da Harvard Medical School, referência no tratamento nos EUA, disse que a intenção é que o Brasil consiga avançar nos mecanismos de combate à doença. Ele fez questão de destacar que o tratamento contínuo é peça-chanve no caso do Mieloma, pelo fato de as recaídas durante o processo serem muito frequentes.  O especialista defendeu o uso da Lenalidomida (a droga reprovada no Brasil) como um meio muito potente no combate ao mal, e também o Velcade. Ele lembra que os dois medicamentos podem ter menos efeitos colaterais que a Talidomida.

Apesar do quadro de alerta, não há números formais sobre a doença no Brasil. Extraoficialmente, fala-se em 30 mil pacientes em tratamento. Há ainda a informação de que 700 mil novos casos apareçam no mundo a cada ano.

Presente ao encontro sobre o Mieloma, o advogado Dorival Urino, de 68 aos, que está em tratamento contra a doença desde 2004, fez um relato sobre seu quadro clínico e defendeu a circulação de novos remédios para modernizar o combate à doença no Brasil. Ele se tratou com a Lenalidomida depois de uma recaída séria do quadro clínico e teve ótimos resultados.

“Tive muita dor, era da cama para o sofá, do sofá para a cama. Fiquei quase imobilizado, não dirigia e tive que usar um colete. Tomei o Revlimid (Lenalinomida) e certo dia, acordei sem nada”, comemora. E ainda manda um recado otimista: “não é porque está com Mieloma que quer dizer que a pessoa vai morrer”.

As discussões em torno do tema seguem até domingo, dentro da programação do Hemo 2012, Congresso de Hematologia que acontece no RioCentro, na Barra da Tijuca. 

Terra