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Muitas vezes aquela diarréia inconveniente, a incômoda prisão de ventre ou a manifestação alternante desses quadros não são mera conseqüência de maus hábitos alimentares ou de uma vida desregrada.
A disenteria pode vir associada com freqüência a distúrbios psicossomáticos (emocionais) como estresse e depressão. O quadro, denominado Síndrome do Intestino Irritável (SII), refere-se a estas manifestações, e a proposta de médicos é tratar estes casos de forma multidisciplinar, não apenas no âmbito da gastroenterologia.
Esta síndrome está inserida no quadro das doenças funcionais - aquelas em que os órgãos se encontram em perfeito estado, mas, ainda assim, não funcionam direito. Professor titular da disciplina de gastroenterologia da PUC de Campinas-SP, Flávio Quilici estima que cerca de 1,5 milhão de pessoas são acometidos pela SII no Brasil, sendo que há uma proporção de 59% de mulheres e 41% de homens. O professor explica que a doença ocorre por uma já identificada desfunção na transmissão de informações do cérebro para o intestino, através de mediadores, a cerotonina.
"A parte emocional é um agente desencadeante da doença. Mas é bom dizer que o quadro emocional pode estimular, mas não causa diarréia, constipação nem a alternância desses quadros", esclarece o professor. "Muitos pacientes, com freqüência, têm o agravamento dos sintomas em períodos de estresse", diz o psiquiatra José Paulo Fiks. Mas a identificação da doença só se dá por avaliação clínica, quando se observam os sintomas que identificam a síndrome. O tratamento convencional se dá com anti-espasmódicos específicos para o intestino, como a mebeverina e o pinavério.
Flávio Quilici afirma, no entanto, que não se trata de indicar aos pacientes ir ao psiquiatra quando for acometido por uma diarréia ou prisão de ventre quaisquer. "Essa indicação deve ser dada aos médicos porque, nesses casos, não adianta apenas tratar a doença, é preciso entender o doente". O professor ressalta ser uma característica da medicina atual procurar tratar as doenças de forma multidisciplinar, o que ajuda diminuir as conseqüências adversas.
O professor Flávio Quilici diz ainda ser importante ressaltar que pela possibilidade de diferentes apresentações da SII, cada paciente deve ser abordado de forma individualizada. Ele salienta ainda a necessidade de estimular a relação médico-paciente, que servirá de base sólida para o sucesso da ação terapêutica. Quilici diz ainda que o doente deve ser escutado.
A investigação da SII pode causar frustração e desconfiança no paciente, pois os resultados negativos em uma pesquisa laboratorial podem sugerir a alguns pacientes que alguma doença séria não foi descoberta nele. Muitos chegam a pensar que têm algum tipo de câncer. Isso ocorre porque, apesar dos sintomas, não existem relevantes evidências orgânicas nem laboratoriais. "Um dos primeiros passos é afastar o fantasma do câncer, que freqüentemente apavora os doentes. Outro passo importante é explicar o conceito de patologia funcional, pois a sociedade busca por respostas nos resultados de laboratório, o que não acontece com esta síndrome", conclui o psiquiatra José Paulo Fiks.
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