|
Para o psiquiatra Aderbal Vieira Júnior, a dependência é uma relação problemática com uma experiência ligada ao prazer. "A pessoa tende ao exagero, ao contraproducente em relação a coisas prazeirosas." Por isso, o psiquiatra prefere a expressão "sexo patológico" a "compulsão sexual". "Outros pesquisadores vêem esse problema como um transtorno obsessivo compulsivo, como a cleptomania ou a lavagem excessiva das mãos. Discordo porque esses transtornos não estão ligados ao prazer, só tem um lado ruim."
O prazer existe, mas é efêmero e destrutivo, afirma o estudante João, de 26 anos. "Você pode ter um belo orgasmo, sentir aquele alívio, mas em seguida sente um vazio. É desgastante: tem prazer, mas não há continuidade, relação afetiva, é como se você fosse um corpo, não uma pessoa. Esse vazio faz com que você saia no dia seguinte à procura de mais", relata. O profissional liberal Henrique, de 40 anos, que contabiliza "escapadas" desde a adolescência, nota um aumento de freqüência quando seu dia-a-dia não vai bem. "A adrenalina faz com que eu me sinta vivo, é como uma droga. Só que depois fico amargo e levo dias para me recuperar, é uma mistura de prazer e esgotamento", afirma.
Apesar de já ser descrito há bastante tempo, o sexo patológico ainda é pouco conhecido. O diagnóstico é feito por uma avaliação psiquiátrica. Alguns pesquisadores acham que pode haver alguma origem orgânica para esse tipo de distúrbio, mas nada foi provado até agora. "Apresentar alterações psicopatológicas não significa estar doente, apenas é um sinal de que há algo disfuncional na pessoa", explica Vieira. A forma mais usada de tratamento é a psicoterapia, tanto em grupo quanto individual.
Um outro problema que surge quando se fala dessa patologia é o papel que o sexo ocupa na sociedade moderna. "Já tive um caso em que o paciente veio fazer uma entrevista, contou sua vida e depois não quis começar o tratamento. Ele queria apenas contar vantagem", relata Vieira. "Vivemos neste padrão." O estudante João, que vive essa "compulsão" há seis anos, concorda. "Se você disser que transou com dez em uma noite, as pessoas vão querer estar no seu lugar. Isso não passa a imagem de um distúrbio. Se fizer ressalvas, dizendo que foi mal na prova ou faltou ao trabalho por causa disso, as pessoas podem até relativizar, mas batem palmas para você do mesmo jeito."
|