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Um processo de musicoterapia pode ser curto, com dois meses de duração para trabalhar sintomas mais superficiais como uma dor, ou durar anos em casos mais complexos. É o que lembra o musicoterapeuta Renato Tocantins Sampaio, presidente da Associação de Profissionais e Estudantes de Musicoterapia do Estado de São Paulo.

Nos momentos inciais, é feita uma entrevista para saber a história sonora do paciente, as músicas que ele teve contato, as experiências e a história de vida. "Deve-se saber se foi encaminhado por outro profissional e as razões desse encaminhamento. É feita uma avaliação e depois um plano de tratamento", explica a musicoterapeuta Sheila Volpi.

No Brasil, se desenvolve mais a musicoterapia interativa com a pessoa tocando e/ou cantando, segundo Sheila, diferente de outros países em que o paciente se coloca mais numa posição passiva de escuta. As sessões podem despertar memórias e podem surgir experiências negativas em relação a determinados estilos musicais ou sons, por exemplo. Daí a importância de um musicoterapeuta qualificado estabelecendo uma relação com o paciente.

"Uma vez, atendi um garoto de seis anos numa creche que tinha um medo sonoro grande, dificuldades emocionais, problemas na escola. Ele tinha medo de sons que chegavam mansinho e iam crescendo em intensidade de forma ameaçadora. Ele vivia amedrontado. O processo durou um ano e meio. Ele passou a lidar melhor com a escola, as outras crianças, as suas emoções e a percepção do ambiente em que vivia", exemplifica Sampaio.

A música pode ser o interlocutor, inclusive, das relações com crianças autistas e com psicose, segundo a psicóloga Carmem Lúcia de Vasconcelos, com especialização em musicoterapia. "O autismo tem grandes dificuldades em três áreas: interação social, comunicação e linguagem", afirma Carmem que atua no Centro Médico Psicopedagógico Infantil, em Recife, desde 1994. Nesse serviço público, ela trabalha com autismo e psicose infantil.

A ordem da comunicação pela palavra, tal como se conhece pelos critérios sociais, é rompida nesses casos. "Através da música, temos a possibilidade de nos aproximar de forma menos ameaçadora para a criança. Porque a palavra do outro é ameaçadora. Já o som pode ser mais familiar, porque desde o útero ela escuta os batimentos cardíacos da mãe", diz Carmem.

Os elementos sonoros têm vasta amplitude para possibilitar comunicação. As sessões podem usar diversos tons, ritmos e até sons de batimentos cardíacos. "É a linguagem que nos dá a identidade como sujeitos psíquicos. Como a dificuldade dessa criança passa pelo estabelecimento da linguagem, a música pode ser um meio para que ela possa vivenciar a comunicação, nas relações com os outros, melhorando a qualidade dessas relações", explica a psicóloga. Aliado à história de vida e familiar, a criança com autismo pode fazer construções a partir da música, que ela não conseguiria pela fala.
 
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