Saliva produz analgésico seis vezes mais forte que a morfina

Opiorfina também tem efeito antidepressivo e está sendo comparada ao ópio, só que com uma vantagem: poucas chances de causar dependência

28 abr 2016
08h00

Há algum tempo cientistas franceses do Instituto Pasteur descobriram que a saliva contém em sua composição uma sustância chamada Opiorfina que tem um efeito analgésico e antidepressivo comparável ao ópio e que pode ser até mais forte que a morfina. E o mais legal é que ela não causa dependência. 

Essa molécula age na endorfina (substância responsável pela sensação de prazer e bem estar produzida pelo organismo) prolongando seu efeito e inibindo outras moléculas que poderiam inativa-la. Assim, segundo dados publicados no Journal of Physiology and Pharmacolgy, a Opiorfina não tem efeito exagerado e as chances de causar dependência são pequenas. 

Pesquisas feitas em ratos com a Opiorfina mostraram um efeito analgésico 3 vezes maior que o da morfina em caso de dor causada por estímulos químicos e 6 vezes maior em caso de dor causada por estímulos físicos
Pesquisas feitas em ratos com a Opiorfina mostraram um efeito analgésico 3 vezes maior que o da morfina em caso de dor causada por estímulos químicos e 6 vezes maior em caso de dor causada por estímulos físicos
Foto: Maridav / Shutterstock

Seis vezes mais forte que a morfina 
Pesquisas feitas em ratos com a Opiorfina mostraram um efeito analgésico 3 vezes maior que o da morfina em caso de dor causada por estímulos químicos e 6 vezes maior em caso de dor causada por estímulos físicos (por agulhas, por exemplo). 

Contudo, é importante considerarmos que a substância ainda não foi testada em humanos para afirmar se os efeitos seriam semelhantes. “Na prática, sabemos que a dor em humanos é uma experiência multifatorial, não é apenas física ou orgânica, mas apresenta também características sociais, ambientais, culturais, emocionais”, diz Maria Cecília Aguiar, cirurgiã-dentista especializada em Odontogeriatria. 

Por que sentimos dor?
Mas se temos uma substância tão poderosa assim contra a dor em nossa saliva, por que então sentimos tanta dor quando mordemos a língua ou queimamos a boca? 

“A explicação está no fato de que a concentração dessa substância não é elevada o suficiente para bloquear a dor. E é bom que seja assim por que sentir dor é um estímulo protetor. Imagine uma afta na língua e nenhuma sensibilidade desagradável? A pessoa continuaria tomando café quente ou bebida alcoólica, comendo comida condimentada, usando limpador de língua em cima da afta etc. Com isso, essa afta demoraria ainda mais a cicatrizar. A dor faz com que a pessoa, instintivamente, busque preservar-se, o que favorece a recuperação”, diz a especialista. 

Também é importante ressaltar que a boca possui mais receptores sensoriais do que qualquer outra parte do corpo, ou seja, ela é muito sensível. “Um fio de cabelo curto ou um grão de areia são facilmente percebidos pela boca. E a mesma sensibilidade se aplica aos receptores dolorosos. Assim, mesmo com analgésicos naturais, fica explicado sentirmos tanta dor em machucados na boca. Um ferimento de mesmo tamanho que essa afta na boca, mas no joelho, pode passar completamente despercebido”, diz Maria Cecília. 
 
Variação de pessoa para pessoa
A quantidade de Opiorfina pode mudar de pessoa para pessoa. Isso porque as glândulas salivares filtram o sangue para produzir a saliva e como o sangue de cada pessoa é diferente, a saliva também pode ser. “Assim, é possível que a saliva de determinada pessoa contenha mais Opiorfina que a de outra”, diz a especialista. 
 
Mas uma coisa é certa, se você quer produzir mais desse analgésico, basta comer alguma coisa. “Quando mastigamos produzimos uma quantidade maior de saliva e liberamos uma carga maior dessas substâncias” diz a especialista. 
 
Remédios de saliva
Com essa descoberta é inevitável não pensar que logo mais um remédio

feito de saliva pode chegar ao mercado.  “Esta descoberta abre possibilidades de desenvolvimento de medicamentos analgésicos com menos efeitos colaterais, como a dependência química e psicológica que os fármacos convencionais podem causar”, diz Maria Cecília. 

Porém, apesar de promissor, primeiro, é necessário compreender melhor o funcionamento da Opiorfina, produzir uma versão sintética equivalente, achar uma empresa farmacêutica disposta a testá-la em outros mamíferos, fazer testes em humanos e só depois disso tudo, pensar em comercializá-la. Por isso, ainda teremos que esperar um pouco para vermos nossa saliva sendo vendida como antidepressivo por aí. 

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