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Mulher perde metade do rosto por uma necrose

A necrose consumiu metade do rosto da jovem cambojana até deixar um enorme ferimento profundo e escuro.

16 mar 2017
09h58
atualizado às 11h30
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Dois hospitais públicos do Camboja rejeitaram atendimento a Soth Rey, que teve metade do rosto consumido por uma necrose, quando viram a gravidade da doença e que sua família carecia de meios para pagar de forma antecipada.

Sem ajuda médica, os familiares de Soth Rey, de 18 anos e moradora de Siem Reap, um dos principais destinos turísticos deste país do sudeste asiático, perderam a esperança de salvar sua filha, que em dezembro contraiu uma secreção ou uma alergia - os médicos ainda não esclareceram seu problema -, antes de sofrer uma infecção no nariz que se transformou em uma necrose.

A necrose, que consiste na morte das células devido a um agente invasor ou a uma deficiência imunológica, entre outras causas, consumiu metade do rosto da jovem até deixar um enorme ferimento profundo e escuro.

Soth Rey teve metade de seu rosto consumido por uma necrose
Soth Rey teve metade de seu rosto consumido por uma necrose
Foto: Yulia Khouri / EFE

Há menos de um mês, o caso da cambojana chegou através das redes sociais à expatriada Yulia Khouri, também moradora de Siem Reap, no noroeste do Camboja.

As doações de Khouri e de outras pessoas anônimas permitiram que Soth Rey fosse internada no hospital particular Sen Sok International da capital cambojana, onde chegou em 26 de fevereiro com 41 graus de febre, uma pneumonia septicêmica, desidratada e com 35 quilos de peso devido à desnutrição.

"(Os médicos) viram muitos desastres, mas estes são resultado de acidentes de carro, queimaduras, incêndios, ácido. Mas isto é carne apodrecendo de forma natural, é um pesadelo, um filme de terror, só posso imaginar a quantidade de dor que esta menina sofreu", disse Khouri à Agência Efe.

Embora a família careça do histórico médico, a irmã de Soth, Boh Rey, conta como uma visita rotineira a uma clínica por uma secreção ou uma alergia - os médicos ainda não descobriram a causa - se transformou em meses de agonia que requereria uma reconstrução facial.

Em dezembro, a família foi pela primeira vez a uma clínica em Siem Reap onde um médico, após tentar primeiro prescrever remédios, decidiu realizar uma cirurgia invasiva no nariz da jovem e depois retirar os dentes superiores para curar uma infecção.

"Depois das operações, seu rosto voltou a infeccionar e não fomos a mais clínicas", contou à Efe Boh Rey no hospital Sen Sok.

A família, composta por cinco irmãos, já não contava mais com meios para o tratamento pós-operatório, e optaram como último recurso pela medicina tradicional, através de um ritual no qual um curandeiro soprou e cuspiu na jovem.

O caso da cambojana chegou à expatriada Yulia Khouri, também moradora de Siem Reap, no noroeste do Camboja pelas redes sociais
O caso da cambojana chegou à expatriada Yulia Khouri, também moradora de Siem Reap, no noroeste do Camboja pelas redes sociais
Foto: Yulia Khouri / EFE

Foi após este périplo médico que dois hospitais públicos de Siem Reap rejeitaram plenamente a paciente, em um dos casos sem dar qualquer motivo e no outro após pedir o pagamento antecipado de US$ 500, antes mesmo de tentar estabilizar a jovem.

"Quando os profissionais de saúde, enfermeiros e médicos, veem uma pessoa que tem uma condição crítica, que está sangrando, com febre alta, sofrendo convulsões, é sua obrigação deter esta condição, depois podemos falar de internar a paciente ou transferi-la, de pagar ou não pagar", opinou a subdiretora de Sen Sok, a médica Tatiana Turobova.

Por sua vez, o diretor do hospital, o médico Ivan Matela, que comparou o estado da jovem com as atrocidades dos campos de concentração de Auschwitz, considera que é necessário começar "uma discussão para que as pessoas assumam responsabilidades em casos como este".

Um dos problemas no Camboja que afeta possíveis casos de má praxis é a falta de acesso dos pacientes aos prontuários médicos.

"Quando os pacientes pedem o histórico de seus resultados, a maioria dos estabelecimentos se nega com contundência a facilitá-los e alega que são propriedade particular do hospital", criticou Matela.

"Se Soth Rey tivesse sido internada em uma clínica normal há dois meses, ela não estaria aqui hoje", acrescentou o médico russo.

Apesar da evolução da necrose ter sido interrompida e Soth Rey apresentar melhoras a cada dia, a septicemia (infecção geral devido a patógenos que entram na corrente sanguínea) ainda traz riscos.

Para arcar com as despesas, Khouri arrecada fundos para o tratamento médico através de uma campanha de financiamento coletivo e doações particulares.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) criticou, em um relatório apresentado em 2015, que o governo do Camboja deveria ter investido mais em serviços sociais dentro do alto crescimento econômico - próximo de 7% - vivido pelo país nos últimos anos.

Cerca de 80% da população cambojana vive em zonas rurais e metade recorre a praticantes sem qualificação, que em muitas ocasiões são autodidatas e contam com poucos meios, segundo a OMS.

Além disso, a população de médicos é das mais baixas da região, 0,2 para cada 100 mil pessoas em 2012, segundo o Banco Mundial, um legado da guerra civil e do regime genocida do Khmer Vermelho.

EFE   

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